Jornal Folha de São Paulo, 6 de fevereiro de 2011

ESTÃO CONSEGUINDO fazer aqui em Harvard a união das crenças milenares do budismo com a neurociência, mostrando como a meditação altera áreas do cérebro e produz bem-estar: menos ansiedade, depressão e dores crônicas. E até menos propensão à obesidade.

Submeteram 2.250 universitários a testes de ressonância magnética, depois de passarem por exercício de meditação. As imagens exibiram ampliação nas áreas do cérebro associadas à memória, à aprendizagem e ao equilíbrio emocional e redução daquelas ligadas ao estresse. Essa química entre um conhecimento de 2.500 anos com neurocientistas e psiquiatras, munidos com máquinas que detalham o funcionamento do cérebro, reflete a inquietação dos cientistas diante da epidemia de ansiedade, traduzida no consumo crescente de remédios.

Por trás dessa discussão, existe a suspeita de que tanta pressa está deixando as pessoas inseguras, perdidas em meio a tanta informação. Se alguém não estiver apressado ou, pelo menos, parecendo apressado, deve ser um desocupado e, portanto, um fracassado. Professor de psicologia da faculdade de medicina de Harvard, Ronald Siegel criou um centro de pesquisa, próximo ao campus, em que se investigam os efeitos da meditação e como colocá-la no cotidiano. Ele lançou recentemente um livro sobre técnicas da atenção (“Mindfulness Solution”).

Todos daquele instituto são professores ou pesquisadores convencidos de que aprender a se concentrar, vivendo melhor o tempo presente, produz gente mais equilibrada e eficiente. O que, segundo eles, ajuda os efeitos dos remédios e da terapia.

São ensinadas técnicas simples. Ronald Siegel, por exemplo, caminha de um jeito diferente: ele se concentra em cada passo e observa como o movimento produz reações em seu corpo. Deixa-se entregar ao voo de um passarinho, à brisa que bate em seu rosto ou aos risos de uma criança brincando no parque, sempre observando como cada coisa se passa dentro dele. “Estar presente de fato, não fugir da realidade, é um jeito de moldar o cérebro para as adversidades”, diz o professor. Estar presente não significa, acrescenta, sentir só a brisa no rosto num dia primaveril, mas não fugir do sofrimento.

A pressa é um dos fatores que estimulam a obesidade. Na semana passada saiu um relatório mostrando como está acelerando mais do que se imaginava a epidemia do sobrepeso.

Para ajudar os pacientes a se alimentarem melhorar, o Boston Medical Center se inspira nas lições de meditação. Aprendem a saborear uma única passa durante vários minutos, experimentando diversas sensações. Trava-se, assim, uma guerra contra o fast-food. Não estivéssemos falando de gente que ensina na faculdade de Medicina de Harvard, cujas descobertas foram publicadas em duas revistas acadêmicas de psiquiatria, este artigo iria parecer reflexão de hippie esclerosado ou bicho-grilo.

Foram feitos vários testes revelando que a dependência da informação é semelhante, em muitos casos, à dependência química. Isso é o que se vê quando se pede para que os jovens fiquem sem acesso a internet e longe do celular. Responde-se apenas ao estímulo externo, na busca diária de mais um aplicativo (o mais baixado, durante muito tempo, foi um que reproduzia os efeitos sonoros da flatulência).

Não se está fazendo uma daquelas críticas retrógradas às tecnologias, afinal quem não quer usar o Skype ou ter acesso aos amigos pelo Facebook? Na semana passada, o Google divulgou um projeto que permite uma visita virtual a alguns dos melhores museus do mundo, com chance de dar zoom nas obras. O problema é saber até que ponto tanta informação exterior inibe o autoconhecimento interior.

Segundo os textos de Ronald Siegel, não viver a tristeza, comum a qualquer ser humano, é sedimentar o caminho para a depressão. Imagina-se muitas vezes, nesta era do entretenimento, que tristeza é uma falha a ser enfrentada com drogas ou remédios tarja preta. “Quando não se está presente, não se vivencia nem a tristeza nem a felicidade”, diz ele.

O problema é que pressa em excesso tem gerado desequilíbrios, que acabam numa mesa de cirurgia ou no divã de um psiquiatra. Por isso, há quem aposte que uma das tendências contemporâneas é fazer menos coisas e com mais qualidade, na suposição de que, como diz o ditado, quem tem pressa come cru – e quente.