O SAGRADO ESTÁ DENTRO DE VOCÊ

O homem contemporâneo parece ter perdido suas referências. O Estado perdeu seu poder, o pai se enfraqueceu e a verdade perdeu parte do seu prestígio.

É verdade que o século XX se dedicou ao menos no Ocidente, à desconstrução dos valores tradicionais, desconstruíram tudo: a cronologia e a psicologia, a figuração da pintura, a cronologia e psicologia dos personagens no romance e no teatro, mas também os valores religiosos e morais da tradição. Paradoxalmente, conduziram as mudanças, mas o capitalismo globalizado foi quem, no fim das contas, liquidificou e liquidou os valores tradicionais ao exigir que tudo desemboque na lógica de mercado. É por causa do capitalismo globalizado que não existem mais ideais transcendentais e tudo se torna mercadoria. Pois no mundo de hoje, nos consumimos de tudo, não simplesmente computadores e automóveis, mas também consumimos cultura, religião, escola, política, etc.

Mas foi também o capitalismo que inventou um valor novo e positivo: o casamento por amor e a família moderna, fundada sobre a livre escolha e a afinidade eletiva. E essa invenção vai conduzir a uma boa coisa: a sacralização da pessoa humana. Como? Eis o que nos ensina os melhores historiadores: na Idade Média, não se casava jamais por amor, mas por transmitir um nome, um patrimônio, uma herança, para fabricar crianças para continuar a exploração agrícola. Não se casava ativamente, mas passivamente, pelos pais ou pela cidade.

Ao inventar os assalariados e o mercado de trabalho, o capitalismo arranca os indivíduos das comunidades rurais e religiosas de origem. E esses indivíduos passam a ter um salário, logo autonomia financeira e material. Os indivíduos se libertam das formas tradicionais de contrato social, sejam religiosas ou agrícolas. Assim, em vez de se casar passivamente, eles passam a se casar por escolha, por afinidade e por amor, essa invenção moderna altera toda a nossa relação com a infância e conduz à sacralização do humano. É esse amor que vai se transferir, por intermédio das crianças, para gerações futuras. Esse amor por extensão é a origem do desenvolvimento da ação humanitária, cuja história é rigorosamente paralela à família moderna, fundada sobre o sentimento, não mais sobre a obrigação. Bem entendido, toda esta evolução levou séculos e está apenas se completando no Ocidente.

A religião nos convida a crer em uma vida após a morte, enquanto as grandes filosofias retomam todas à sua maneira, a questão posta por Homero e pela filosofia grega: como encontrar uma sabedoria para os mortais, uma boa vida para os que vão morrer?

Você se lembra da “Odisséia” e da famosa passagem em que Ulisses se encontrava prisioneiro de Calipso. A ninfa é sublime. Loucamente apaixonada por Ulisses, ela não se cansa de faze amor com ele. Disposta a tudo para conservá-lo, ela oferece a imortalidade. No entanto, Ulisses a deixa, retorna para Ítaca, sua terra natal e reencontra a família. Prova de que uma vida mortal consegue talvez ser superior a uma vida imortal fracassada. A aceitação da aventura e da morte, a sabedoria não religiosa.

A filosofia começa na Grécia, com essa idéia genial de que sábio é aquele que consegue viver no presente, sem ser constantemente submetido a estes dois males que são o passado e o futuro. Por quê? Porque todas as angústias vêm disso. Quando o passado foi feliz, permanecemos na nostalgia. Quando foi penoso, sentimos arrependimentos e culpa. Então nos refugiamos no futuro, tentando nos convencer de que ele será melhor quando mudarmos de carro, de sapato, de penteado, de mulher, de marido, de casa… E isso, é claro, é uma grande ilusão. O sábio é aquele que consegue vencer o medo ou, como disse Marco Aurélio, aquele que consegue se lastimar um pouco menos, esperar um pouco menos e amar um pouco mais.

Por tudo isto, você é o sagrado, Deus está dentro de ti, seja sábio e livre. Viva o presente, viva hoje seu aniversário junto de todos aqueles que você ama, parabéns!

Marco Antonio Togni